•  segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Vai que cola?

Há alguns anos, havia um personagem no A Praça é Nossa (interpretado pelo ex-cunhado do Carlos Alberto de Nóbrega) que tentava passar uma cantada em uma mulher, que sempre terminava com ele levando um tapa e o bordão: “Mas vai que cola?”.

A piada, que no humor é apenas sem graça, se aplicada ao dia a dia, como movimentos baseados em fake news vêm tentando há muito, se torna absolutamente preocupante. Afinal, se é saudável questionar sempre, também é importante entender que alguns fatos não cabem discussão.

Por exemplo, racionalmente, todo mundo sabe que o racismo é errado. Ainda assim, há racistas em todos os lugares, gente que insiste em ofender pessoas apenas pela cor da pele. Parece uma burrice inexplicável, mas tem muitos que ainda creem nisso. Insistem em amparar suas “opiniões” em argumentos estapafúrdios, com base no “vai que cola”?

Aliás, vale lembrar que quem tinha o hábito de promover uma “raça superior” era um tal de Adolf Hitler e um movimento nada memorável chamado Nazismo que, por incrível que pareça, encontra simpatizantes ainda hoje em dia, além de muita gente que questiona se o Holocausto existiu. Sim, esse momento trágico na História Mundial realmente aconteceu, infelizmente. Ah, e também, citando o embaixador alemão no Brasil Georg Witschel: “Nunca ouvi uma voz séria na Alemanha argumentando que o nacional-socialismo foi um movimento de esquerda. Não faz sentido jogar a culpa e a responsabilidade do Holocausto em uma determinada tendência política. Foram os nazistas. Com certeza não foram os socialistas”, afirmou, lembrando ainda que membros de partidos de esquerda, como os social-democratas e os comunistas, estavam entre as primeiras vítimas do regime (DW Brasil).

A discussão, nesse caso, nem deveria ser sobre lados, mas apenas sobre condenar o nazismo. Ainda assim, se você quer insistir no assunto, pelo menos seja honesto, respeite os especialistas que passaram a vida estudando o assunto e não se baseiam em teorias de conspiração malucas, mas sim, em fatos.

O que nos leva também à Terra Plana. Faz pelo menos uns 500 anos que há consenso sobre o formato do nosso planetinha azul. Há fotos, registros, satélites, estudos… provas mais do que contundentes, mas aí, algum maluco diz que estamos dentro de uma pizza gigante no espaço, contrariando todos os argumentos científicos e pronto, temos um retorno à idade média.

Esses são apenas alguns exemplos, há muitos, acontecendo a todo momento. E geralmente, não surgem com base em ignorância ou falta de informação, pelo contrário. Na maioria dos casos, os principais defensores de ideias absurdas para a maioria, estão cientes de que estão manipulando informações e distorcendo a verdade, mas o fazem de forma planejada, maquiavélica, buscando apoio de quem quer que possa ser convencido.

E o poder de convencimento nunca pode ser subestimado, basta lembrar casos como de Jonestown, quando o “pastor” Jim Jones convenceu centenas de pessoas do seu culto a praticarem suicídio coletivo (foram 918 pessoas mortas, incluindo muitas assassinadas ao discordarem da ideia); ou de Charles Manson, que levou membros do seu culto “Família Manson” a cometer assassinatos de personalidades famosas no fim dos anos 60.

De certo que essas pessoas eram inteligentes, articuladas e muito bem capazes de enxergar vulnerabilidades em suas vítimas e souberam como agir para manipulá-las.

Por isso mesmo, é importante estar atento a questões que, por mais absurdas que soem de início, merecem ser barradas de forma definitiva, ao invés de apenas satirizadas, sem reconhecer seu potencial nocivo.

Hoje, determinado assunto pode ser só uma besteira ridícula, mas vai que cola?

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