•  segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O mundo começa agora

Chegamos a 2020 e, diferente do que achávamos nas décadas anteriores, o futuro não é tanto quanto imaginávamos. Ainda não há carros voadores, viagens interplanetárias, teletransporte, robôs domésticos cumprindo nossos afazeres, para citar só alguns exemplos. Ao invés disso, voltamos a discutir fatos já incontestáveis, como afirmar que a Terra é plana, que vacina faz mal, entre outros, nessa nova era que está sendo conhecida como da “pós-verdade”.

O termo basicamente quer dizer sobre uma “versão paralela” da verdade, em que a pessoa decide acreditar no que lhe convém. Sim, como se a verdade fosse uma questão de múltipla escolha, com o argumento de que “o que é verdade para você, pode não ser para mim”. Só que não né? Algumas coisas são provadas cientificamente – que a Terra é redonda por exemplo –, são fatos e não cabem alternativas. É como dizer que o fogo é gelado. Simples assim.

Mas se as histórias de ficção científica foram generosas no otimismo com relação a onde estaríamos como humanidade nessa época do nosso desenvolvimento, por outro lado, também foram muitas as histórias de um futuro distópico, incontáveis se popularizaram nos cinemas, inclusive. Do clássico Blade Runner, com seus replicantes – androides fielmente humanos – passando por Exterminador do Futuro, Eu, Robô; Jogos Vorazes, Divergente, Matrix, Elysium e mais um caminhão de títulos que encheriam páginas, uma visão pessimista do futuro sempre foi terreno fértil para escritores.

Muitas dessas histórias, se bem interpretadas, poderiam servir de alerta para evitar o tal futuro apocalíptico que tanto tememos. Só que a realidade é muito mais complexa e, na verdade, sem que sejamos capazes de nos dar conta, o mundo em que vivemos hoje já beira a uma distopia tão pessimista quanto as que vimos na ficção.

Pode parecer exagero, mas todos os sinais estão lá. Por exemplo, embora a pobreza extrema continue a diminuir no mundo, os números estimados pela ONU ainda não indicam que ela será erradicada em 2030, como se esperava e, pior, a desigualdade, em muitos casos, continua crescendo, com o Brasil aparecendo como o 7º país mais desigual do mundo, atrás apenas de alguns africanos. Mas era de se esperar que com todos os recursos que temos e o avanço da tecnologia, já tivéssemos sido capazes de evitar que tantas pessoas vivessem em situação sub-humana. Isso sem falar na crise de refugiados de países como Venezuela e Síria, que coloca populações inteiras vivendo em clima de fim do mundo.

Outra questão bastante presente nas distopias é a “morte” do nosso planeta ou mudanças climáticas que podem levar nossa espécie à extinção. Alguém aí lembrou dos incêndios na Austrália (e tantos outros pelo mundo, inclusive no Brasil?).

Sim, o aquecimento global é real, assim como a urgência de ações para preservar o planeta; menosprezar uma garota de 16 anos não muda esses fatos – e ela não foi eleita a personalidade do ano de 2019 pela revista Time à toa.

Negar essas situações – ou transformá-las em pós-verdade – não faz com que elas desapareçam ou simplesmente sejam resolvidas, isso só pode ser feito ao encará-las. Só assim podemos voltar a acreditar nas melhores histórias de futuro, um em que nossos filhos possam viver em um mundo realmente melhor que o nosso.

E que não precisemos esperar uma revolução de máquinas, tsunamis gigantes engolindo cidades e fogo caindo do céu para que sejamos capazes de nos unir mais em torno desse bem comum. Imaginar o futuro é sempre divertido, mas que a distopia fique apenas para as histórias de ficção.

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