•  segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Evolução Polegar

Certa vez, para espanto de algumas pessoas, eu disse que os bebês são quase como cãezinhos, já que não se diferem muito de pequenos animais recém-nascidos, afinal, somos mesmo animais e não muito mais que isso, mesmo depois de crescidos.

O que nos coloca no topo da escala evolutiva (na teoria, já que nenhum outro bicho joga lixo no chão, desmata por dinheiro e comete outras atrocidades como nós), são a capacidade de raciocínio e o dedo polegar, conforme bem definido por Jorge Furtado no documentário Ilha das Flores, de 1988: “Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha principalmente por duas características: o  telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão”.

O documentário, aliás, mostra a situação da Ilha das Flores, um lixão onde as pessoas pegam coisas para comer, mas só depois que os empregados separam o que será consumido pelos porcos, ou seja, lá, alguns humanos são menos animais do que os suínos.

Mas indo além de Furtado, acredito que o que nos faz humanos, junto com a capacidade de sentir – amor, compaixão, carinho, ansiedade e até raiva –, é nossa capacidade de produzir coisas que podem causar sentimentos em outros e realmente mudar vidas, em suma, o que chamamos de cultura.

Não são poucas as histórias que podemos acompanhar de pessoas que tiveram a vida transformada pela cultura de alguma forma. Sejam artistas, que saíram do nada para escreverem seus nomes na História humana, sejam aqueles que foram, em algum momento, tocados por algo belo que as fez pensar, as fez aprender, a fez crescer e evoluir.

E a cultura está em praticamente tudo que fazemos, não se iluda. A cultura está na saúde, como nos curandeiros antigos, que faziam seu trabalho guiados por crenças, utilizando plantas medicinais que provaram ser realmente eficazes depois e inspiraram os atuais médicos. A cultura está no esporte, e não à toa, Kobe Bryant, um dos maiores jogadores americanos de basquete da história da NBA, falecido no último dia 26, faturou um Oscar com um curta metragem produzido com seu texto de despedida das quadras. Toda a mítica e simbolismo envolvidos nas competições ou no simples ato de torcer, acredite, são frutos da cultura.

Se não fosse por ela, viveríamos uma vida padronizada, como máquinas cumprindo funções predeterminadas e robóticas. Não haveria paixão, não haveria sonhos e significados mágicos e belos em pequenos atos, em singelas melodias, em palavras rimadas. Não haveria o que nos faz humanos.

Já vi muita gente por aí dizendo que “já precisou de médico, professor, engenheiro, mas nunca precisou de artista”. Pobre de alma alguém que pensa assim. Pois isso só é possível a não ser que você nunca tenha cantando junto uma música que tocou no rádio, dançado ao som de uma melodia contagiante, se emocionado com uma história contada em um filme ou mesmo se imaginado vivendo alguma situação de um livro que leu. Se nunca riu, chorou, se emocionou, se encantou com a criação cultural de alguém.

Se você for esse tipo de pessoa, aí, talvez seja de você que o mundo não precise.

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