•  segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Descobriram o Papai Noel

Embora tenha sido uma criança capaz de acreditar em praticamente tudo, desde que meu sangue era azul, até ser capaz de colocar uma camisa regata nas costas e voar (sem nunca pular de nenhum lugar muito alto, eu era inocente, não estúpido), não me lembro de em algum momento ter acreditado em Papai Noel. Nunca escrevi cartas fazendo pedidos e sempre soube que meus pais é que me dariam o presente – caso eu tivesse me comportado e o 13º tivesse caído a tempo na conta. A única exceção foi um bilhete que escrevi certa vez, contagiando pelas crianças que acreditavam – e que foi devidamente satirizado pela minha irmã.

Mas como não sou referência de crenças, soube que muitas crianças acreditam em Papai Noel, antes de saberem que <aviso de spoiler> ele não existe. Não coincidentemente, são os guris e gurias em melhor condição social que ganham presentes no Natal, já que para muitos, não basta ser um bom garoto, tirar notas altas na escola, respeitar os mais velhos, dormir cedo e não falar palavrão, se o fantasma do desemprego presente visitar os papais, não há Papai Noel que possa trazer certos presentes.

O tal velho de barba branca e generoso que distribui presentes para recompensar os bons meninos e meninas, aliás, foi baseado em São Nicolau (dizem) e não inventado pela Coca-Cola (como também dizem). Na verdade, a empresa de refrigerantes foi sim responsável por popularizar a figura como conhecemos hoje, graças a uma grande campanha publicitária que realizou, com a imagem do bom velhinho baseada numa obra do cartunista Thomas Nast, publicada na edição de 1 de Janeiro de 1863 da revista Harper’s Weeklys (interessante que essa versão do desenhista fumava um longo e fino cachimbo, algo que foi obviamente descartado com o tempo).

Já as outras características clássicas, segundo o Google, apareceram antes, como o trenó puxado por renas, que surgiu no poema Uma Visita de São Nicolau, escrito em 1822 por Clemente Clark Moore. Foi dele também a ideia de que Papai Noel entraria na casa das pessoas pela chaminé, algo que nem naquela época parecia uma boa ideia, não acha? Pensa bem: primeiro porque a chance da chaminé estar acesa era muito grande, então teríamos churrasco de Nicolau. No Brasil então, poucos seriam presenteados, já que chaminés nunca foram muito comuns em nossas terras tropicais.

Ainda que encontrasse outra forma de entrar, Noel encontraria diversos outros problemas e desafios. Invasão de propriedade, como todos sabem, é crime e ele estaria sujeito a levar um tiro, mesmo que estivesse trazendo coisas e não levando. Vestindo vermelho então, que como todos “sabem” é coisa de comunistas comedores de criancinhas, de certo que levaria um balaço. De barba branca e vestindo vermelho, também poderia ser confundido com o Lula e, dada a polarização em nossas bandas tupiniquins nos últimos anos, poderia tanto ser convidado para ficar e cear, como presentear os presentes sendo torturado com requintes de crueldade.

Noelzão também encontraria muitos problemas com relação ao horário, já que, pelo menos por aqui, as ceias se estendem madrugada adentro, muitas vezes com revelação de amigos secretos infiltrados na festa – outros nem tanto. Uma opção muito boa para adaptar e até facilitar o seu trabalho, seria se responsabilizar por entregar ele próprios os presentes de amigo secreto. Eu apoio a ideia e acredito que isso evitaria que as pessoas ganhassem uma camiseta que não serve ao invés daquele livro que pediu… só dizendo.

Enfim, importante lembrar, acredito eu, que Natal deve ser um momento para renovar nossa tolerância, nossa capacidade de perdoar, de oferecer a outra face e praticar o amor. E nem é preciso acreditar em Papai Noel para isso, até porque, como já disse, ele não existe. Pelo menos, até que alguma mensagem no WhatsApp diga o contrário e “prove” a conspiração para esconder sua existência, tudo, claro, obra de malfeitores que querem apenas atrapalhar políticos bem-intencionados.

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